Praias invadidas pelo comércio. A natureza perde, Pipa perde

Um canal aberto para comunicar-se com o prefeito de Tibau do Sul

Praias invadidas pelo comércio. A natureza perde, Pipa perde

Mensagempor Pipense » Ter Fev 10, 2009 10:18 am

Carta Capital - Janeiro 2007
Coluna "Gestão

O mercado vai à praia

Thomaz Wood Jr.

A costa brasileira já foi mar, sombra e água fresca. Hoje, é uma vitrine móvel, a faixa de areia transformada em caótica feira livre

O que justifica uma ida à praia em pleno verão tropical? Vivêssemos em tempos menos frenéticos, seria possível listar ao menos três bons motivos: a brisa no rosto, o frescor atlântico e a vista a alcançar o mais amplo dos horizontes. Não mais. Hoje, veranear na costa brasileira é exercício de masoquismo em ambiente hostil, com aglomerações barulhentas, selvagerias diversas e a emergência, à beira-mar, de um mercado caótico.

Tome-se, por exemplo, a outrora bela costa norte-paulista, de pequenas praias, caprichosamente recortadas na Mata Atlântica. Duas décadas de ocupação destrambelhada imputaram-lhe as pragas urbanas do planalto: condomínios a fechar o acesso ao mar, favelas a subir pelos morros, ruas de traçado improvável, calçadas estropiadas (ou inexistentes) e uma população de ocupação precária e incerta.

No ápice do verão, quando as hordas interioranas despencam serra abaixo com mala, cuia e maus modos, a agitação litorânea atinge seu ápice. O economista diletante que se instalar à beira-mar terá uma visão privilegiada de um curioso fenômeno mercadológico. Na faixa de areia, os ataques à quietude praiana seguem do alvorecer ao anoitecer.

Logo nas primeiras horas da manhã, botecos móveis ocupam espaço estratégico, um a cada cem metros de praia. No cardápio: caipirinha, cerveja, milho verde, sucos e coco gelado (sempre servido morno). De ano a ano, suas coberturas crescem e suas cadeiras se multiplicam. A persistir a tendência, em uma década a praia domingueira será apenas um grande boteco, a dominar toda a faixa de areia, os banhistas condenados a achar caminho no labirinto formado pelas rodas de barrigudos de olhar opaco e mente anuviada.

Chegam, em seguida aos botecos móveis, em ondas sucessivas, as forças de infantaria. Na linha de frente, uma interminável fileira de sorveteiros uniformizados, a defender bandeiras locais e multinacionais. Eles percorrem a praia de ponta a ponta, repetindo incansavelmente o trajeto.

Pouco depois, entra em campo outro exército, à Brancaleone. Seus soldados cruzam a areia empunhando araras com dezenas de vestidos, calças, lenços e cangas. Em dias de maré baixa, eles recebem reforços e invadem a praia com enormes carroças, verdadeiros carros alegóricos, a tração humana invisível por debaixo de roupas e brinquedos infláveis. Junto com eles chegam os vendedores de bijuterias, loiros caídos e morenas desbotadas, provavelmente vindos de São Tomé das Letras. Eles (e elas) seguem trôpegos pela areia, a equilibrar amplos painéis com anéis, brincos, miçangas, colares e outros artefatos, todos de arte e utilidade incertas.

De outras latitudes vêm vendedores de redes, cortinas, panos e paninhos. Suarentos, despejam sotaques arrastados e sorrisos extenuados. Cruzam aqui e acolá com lépidos jornaleiros, a ofertar revistas de pouco texto e muita imagem. Ao se aproximar o horário do almoço, chegam os vendedores de empada e os malabaristas do queijo na brasa, estes a rodar perigosamente seus cadinhos de carvão incandescente entre guarda-sóis familiares. No ápice do dia, inicia-se o ataque aéreo. Monomotores trepidantes rebocam imensas faixas, a anunciar a "cura" da celulite em duas semanas, e muito mais.

Atento, nosso economista observará que as ofertas não se restringem a produtos. Na praia, também vicejam as ofertas de serviços pessoais: massagem esotérica, tatuagens de hena, passeios de barco, excursões ecológicas e aulas de surfe para crianças, adultos e a terceira idade.

A praia no início do ano deixou de ser repouso, transcendência, um local de tempo frouxo, com as benesses simplórias da natureza: a temperatura amena do Atlântico, a brisa intermitente, a água a secar lentamente no corpo, a vista a repousar no horizonte. A praia agora é mercado, para todos os gostos e bolsos. Frenéticas, as hordas consumidoras e vendedoras integram-se em controlada desarmonia. Especulam, barganham, embolsam e desembolsam. A vitalidade é notável. A oferta induz e acompanha a demanda. As cadeias produtivas somam dois séculos de capitalismo: do pré-modernismo dos artesãos, passando pela produção em massa dos sorvetes e refrigerantes, até o pós-modernismo dos serviços de inspiração na auto-ajuda. A demanda é variada e os nichos são infinitos.

A praia transmutou-se em bazar, ponto de encontro de milhares de afoitos consumidores, impelidos por forças sobrenaturais, a alimentar impulsos indomáveis de aquisição, absorção e excitação; um estado de compulsão permanente e insatisfação crônica. Que a economia os proteja e a natureza os perdoe.
Pipense
 
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